Pois é, reprovei.
Hoje recebi um link de marketing com um convite para ser mais feminina. Resolvi acessar e praticamente zerei o “teste”.
Pelo que pude ver, a feminilidade da mulher se sustenta em três “pilares”: corpo, cabelo, vestimenta. Ai ai. Dei meio ✅ no quesito corpo (unhas ok; academia, ok; procedimentos…não ok) e meio ✅ na vestimenta. Eu gosto de andar bem vestida, mas tem dia que um short chinfrim e uma camiseta meia boca é tudo o que eu quero vestir.
Os posts da página seguiram, então, falando sobre comportamentos que exalam feminilidade. Aqui eu dei um “show de horror”, trazendo à tona a frase do Chaves nas aulas do Professor Girafales: “dá zero pra ela”.
Não se sobrecarregue de atividades. Tirei zero. Desculpa, moça, mas não tenho como. Mãe, profissional, responsável pelo lar, ambiciosa, destinada a trilhar o próprio caminho. Desculpa mesmo, mas não tem como focar só no salão de beleza e na academia.
Não pratique atividades masculinas. Mais um zero. O que são atividades masculinas? Veja bem, eu amo motos. Piloto uma e não abro mão. A propósito, minha moto se chama Pantera. Gosto de tomar cerveja gelada e assistir futebol. Gosto de motores, gosto de carros, amo dirigir. E só não pratico algum tipo de arte marcial por causa dos meus joelhos. Senão eu faria. Então, tchau feminilidade.
Posições de liderança são masculinas. Aí complicou. Nessa hora eu já não estava respondendo por mim. Leia-se “liderança” de forma ampla, e não apenas a profissional. “Encontre um homem que lhe dê segurança e assuma as rédeas”. Moça, deixa eu te contar uma coisa: o preço que se paga por não assumir as rédeas da sua própria vida é muito caro. Custa a sua liberdade. Na minha vida, o comando é meu. Portanto, adeus feminilidade.
Na semana passada, enquanto eu estava na porta da delegacia auxiliando uma mulher – dependente econômica e emocionalmente – que havia sido vítima de violência doméstica, aguardava a liberação da viatura que conduziria o agressor para o presídio em cima da Pantera. Moto ligada, aquela roupa preta de estrada, capacete preto de viseira fumê, luvas de proteção. Uma mulher.
Então umas crianças voltando da escola pararam onde eu estava, passaram a mão na moto com os olhos brilhando e perguntaram: “você é polícia?”. Não, não sou. “Então você é o quê?”. Advogada. “Então é assim que é ser advogada??”.
Olha, se é “assim que é ser advogada” eu não sei. Mas quando eu abaixei a viseira do capacete e acelerei a minha moto atrás da viatura que conduziria o agressor para pagar pelo que fez, eu tive uma certeza: não importa a unha, o cabelo, o corpo, a vestimenta ou as minhas preferências, EU ME ORGULHO DA MULHER QUE EU SOU.
E quando a página ofereceu uma chance de recuperação diante do meu teste com nota zero, prometendo um curso de como ser mais feminina e “sedutora” por R$ 1.200,00, eu agradeci. Cada uma com a sua escolha, mas vou pegar esse dinheiro e investir. Tchau.
“Sexy, confident
So intelligent
She is heaven-sent
So soft, so strong
She’s a winner, champion
Superhuman, number one
She’s a sister, she’s a mother”










